De corinthiano para corinthiano!
Ontem à noite, no Corinthians, a reunião do Conselho Deliberativo resultou no afastamento de Romeu Tuma da presidência do órgão. Evidentemente, e infelizmente, a crise não termina aí. Tudo indica que o caso seguirá para a esfera judicial, ampliando ainda mais um cenário político conturbado que insiste em se prolongar no clube. A instabilidade institucional segue como mais um problema sério na já delicada realidade corinthiana.
Estive no Parque São Jorge, cheguei a entrar no local da reunião, mas, como não sou conselheiro atualmente, me retirei antes do início. E foi justamente naquele espaço de entrada do clube que tive alguns momentos de reflexão. A principal delas reforça uma constatação legítima: o Corinthians é imenso. Sua grandeza é indiscutível. O que causa indignação é perceber que, ao longo das últimas décadas, essa força monumental vem sendo desperdiçada por gestões equivocadas, disputas internas e falta de visão estrutural.
Participei da eleição de Augusto Melo, em uma tentativa que, naquele momento, parecia melhor do que a continuidade do grupo Renovação e Transparência. Mas, infelizmente, o Corinthians acabou elegendo, no meu entendimento, o pior presidente de sua história. Foi algo que comecei a denunciar logo após a eleição, muito antes da posse, observando as primeiras medidas adotadas. Augusto Melo priorizou aliados, aparelhou o clube e aprofundou problemas que já eram graves. Se o Corinthians já enfrentava dificuldades financeiras, sua gestão atuou como um verdadeiro tsunami administrativo, arrastando o clube para a maior crise de sua história recente.
Esses fatos, que acabaram inclusive tendo reflexos nas páginas policiais, foram acompanhados por Romeu Tuma, eleito presidente do Conselho Deliberativo. Na posição que ocupava, teve a oportunidade e, no meu entendimento, a obrigação de agir para afastar Augusto Melo da presidência quando veio à tona o escabroso caso VaideBet. Tratava-se, possivelmente, de uma das maiores tentativas de golpe financeiro contra o Corinthians, com elementos suficientemente graves para justificar não apenas a exclusão dos envolvidos do quadro associativo, como também a busca por reparação diante dos enormes prejuízos provocados ao clube.
Romeu Tuma poderia ter evitado a continuidade de uma gestão desastrosa e nociva, que seguiu praticando atos profundamente prejudiciais à saúde financeira do Corinthians. Entre eles, a contratação de centenas de funcionários, muitos com altos salários, e, nas categorias de base, a chegada de quase uma centena de jogadores, em um processo no qual a capacidade técnica claramente não foi o principal critério. Em resumo, Augusto Melo deixou o Corinthians arrasado, sem credibilidade e mergulhado em um noticiário policial constante.
Osmar Stábile assumiu esse imbróglio e, desde então, não teve um único dia de tranquilidade em sua atarefada administração. Este deveria ser o momento da união de todos os que realmente pudessem contribuir com o Corinthians. O clube precisa, com urgência, se reerguer, recuperar confiança e encontrar um caminho sólido para sair do caos.
Romeu Tuma, porém, não apenas deixou de cumprir esse papel, como aparentemente optou pelo confronto com Osmar Stábile — algo que se recusou a fazer, até o último momento, com Augusto Melo. O desfecho foi a situação vivida ontem, quando seu afastamento acabou decretado por ampla maioria dos conselheiros, aprofundando ainda mais a crise política no Parque São Jorge.
Paralelamente, Romeu Tuma vinha conduzindo a reforma estatutária e escolheu apresentar um texto que, na prática, acrescenta muito pouco ao Corinthians. O clube necessita de mudanças reais, profundas e eficazes, capazes de enfrentar de forma concreta o caos financeiro e administrativo que ainda persiste.
Sem reformas estruturais de verdade, que separem de forma clara a administração do clube social da administração do futebol, e sem a adoção efetiva da categoria de Sócio Torcedor com direito a votar e ser votado, o Corinthians continuará impedindo a participação direta de milhões de corinthianos que desejam ajudar, contribuir e construir um futuro melhor para a instituição.
As decisões sobre a parte social deveriam continuar respaldadas pelos sócios patrimoniais — e também pelos remidos. Já as decisões ligadas ao futebol precisariam ser referendadas pelos Sócios Torcedores, podendo inclusive abrir espaço para a participação dos próprios sócios do clube. Esse seria um passo importante para aproximar o Corinthians de sua torcida e democratizar, de fato, o seu futuro.
Voltaremos a esse tema com ainda mais veemência, apresentando novos dados, reflexões e propostas que possam ser analisadas e aperfeiçoadas. Retornando ao que vi ontem à noite, no corredor havia listas de associados que terão direito a votar nas limitadas propostas de reforma estatutária, em Assembleia Geral marcada para o dia 18 de abril — encontro que espero que nem aconteça nesses moldes. São cerca de 10 mil associados com direito a voto, muitos deles completamente distantes dos problemas reais do Corinthians. Em vários casos, sequer são corinthianos.
Enquanto isso, ficam de fora mais de 35 milhões de corinthianos, que sustentam o Corinthians, carregam sua história e representam o seu maior tesouro. A possibilidade de conceder direito de voto aos integrantes do Fiel Torcedor, da forma como está sendo apresentada, praticamente nada acrescenta. Na prática, eles continuarão limitados a escolher dentro do mesmo núcleo político ultrapassado que domina o Parque São Jorge há anos. Conselheiros e associados ligados a esse sistema também carregam responsabilidade, muitas vezes por omissão, pela grave crise financeira que assola o clube.
No link acima, a matéria do Meu Timão mostra que a turbulência institucional segue produzindo novos desdobramentos, inclusive com a atuação do Ministério Público em torno do caso envolvendo o afastamento de Romeu Tuma Jr.
Como se não bastassem todos os erros internos, ainda há a atuação de agentes externos que parecem contribuir mais para ampliar o incêndio do que para ajudar a resolvê-lo. O ambiente político do Corinthians segue cercado de interesses, disputas, vaidades e movimentos que, muitas vezes, parecem mais preocupados com projeção pessoal do que com o futuro do clube. É um cenário que precisa ser observado com atenção pelos corinthianos.
Cláudio Faria Romero Vila Maria
“O Corinthians precisa do amor de todos os corinthianos”