Esta noite de 25 de maio de 2026 precisa entrar na história corinthiana. Não só pela eliminação do quadro associativo do ex-presidente Andrés Sanchez, mas também para ser um marco do início das reformas estruturais de que tanto o Corinthians necessita.
Sem entrar no mérito e aceitando a decisão dos conselheiros, que atuaram em consonância com o desejo da maioria da Fiel Torcida, achar que a importante deliberação de ontem, por si só, vai alavancar as soluções para os graves problemas corinthianos é um perigoso entendimento.
Quem acompanha o Corinthians sabe, infelizmente, que nossos maiores problemas não são causados pelos adversários. Limitando as considerações ao final da década de 1950, mais precisamente ao ano de 1959, a “guerra” entre Vicente Matheus e Vadi Helu, que entraram juntos como presidente e vice-presidente e depois romperam, implantou no clube um sentimento de antagonismo, até de ódio, que gerou consequências terríveis. A maior delas foi a longa estiagem de conquistas, que durou quase 23 anos.
As gestões desses dois ex-presidentes, que dominaram o cenário por mais de 25 anos, germinaram no clube o atual status quo, em que os interesses de lideranças e/ou grupos são mais importantes do que o crescimento e o fortalecimento do Sport Club Corinthians Paulista.
Nesse período, o Corinthians teve saldo patrimonial significativo na parte social, no Parque São Jorge, mas perdeu várias oportunidades de construir um estádio na dimensão que a Fiel Torcida merecia e merece. Nem sequer um centro de treinamentos foi levantado, vendendo-se o orgulho de termos crias no “terrão”, o que certamente era se contentar com pouco.
Paralelamente, e aí vamos falar do maior tesouro que o Corinthians possui, que é a Fiel Torcida, o Corinthians continuava enorme, mesmo sem conquistas significativas. Recordes de público foram batidos, com marcos importantes, destacando a Invasão do Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1976, na semifinal do Brasileiro contra o Fluminense, com cerca de 75 mil corinthianos tomando conta do Maracanã.
Uma semana depois, na final contra o Internacional, mais de 20 mil corinthianos ocuparam grande parte do Beira-Rio. E não foram bem mais porque não foram disponibilizados mais ingressos para a Fiel Torcida.
Com recordes consecutivos de público tanto no Pacaembu quanto no Morumbi, neste caso exibindo a marca de 145 mil corinthianos presentes no segundo jogo das finais contra a Ponte Preta, em 9 de outubro de 1977.
Depois de celebrar esses dados, que certamente estão eternizados na história corinthiana, o Corinthians amargou uma espera de 19 anos para conquistar seu primeiro título brasileiro, em 1990, sem nunca ter sido abandonado pela sua apaixonada e inigualável Fiel Torcida.
Amigos corinthianos, muitos fatos poderíamos citar, mas, só para nos atermos à necessidade de mudanças significativas na condução do clube, tivemos a longa permanência de Alberto Dualib na presidência do Corinthians, com conquistas importantes, como o Bicampeonato Brasileiro de 1998 e 1999 e o Campeonato Mundial de 2000, na primeira disputa dessa competição avalizada pela FIFA. Essa trajetória poderia ter sido um marco para consolidar o Corinthians como o maior protagonista do futebol brasileiro.
Mas Alberto Dualib e o grupo político que o cercava optaram por se “perpetuar” no cargo, começando a levantar um grande endividamento e perdendo a oportunidade da construção de um grande estádio, fato que vinha sendo adiado há décadas.
Dualib e sua gestão tiveram, em 2007, um final melancólico e, no término de sua administração, o Corinthians estava sendo rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Certamente, foi o momento mais triste, na esfera esportiva, da história corinthiana.
Com esse cenário, surgiu Andrés Sanchez e seu grupo Renovação e Transparência. O Corinthians necessitava de mudanças significativas, precisava voltar ao protagonismo no futebol e começar a se reestruturar. Sua primeira gestão atendeu a grande parte das necessidades, consolidadas na gestão seguinte, do presidente Mário Gobbi.
O Corinthians voltava a ser respeitado no futebol, com grandes conquistas, ressaltando a Libertadores e o Mundial de Clubes de 2012, quando a Fiel Torcida demonstrou, novamente, sua imensidão, com o deslocamento de 30 mil corinthianos para o Japão.
Infelizmente, depois de chegar ao “topo do mundo”, desacertos foram cometidos. Além disso, o Corinthians foi flagrantemente roubado na Libertadores de 2013, em pleno Pacaembu. Erros como a contratação de Alexandre Pato começaram a abalar as finanças corinthianas.
A arena corinthiana foi erguida nesse cenário. Visando se adequar às necessidades da Copa do Mundo de 2014, Andrés Sanchez, responsável pela condução do processo, optou pelo que considero um dos maiores erros de sua passagem pelo Corinthians.
O Corinthians, que possui a melhor torcida brasileira e aguardava por longo período ter uma “casa própria”, construiu uma arena luxuosa, mas muito reduzida. Elitista e pequena, alijou a possibilidade de presença, em seus jogos, da grande maioria da torcida corinthiana.
Sobre a arena construída, há de se destacar a maléfica influência de Luiz Paulo Rosenberg sobre Andrés Sanchez, que optou por extravagâncias, quando o ideal era ter construído um local com, no mínimo, 80 mil lugares, com custo equivalente ao que foi gasto no “palácio de mármore”.
O Corinthians, até 2017, quando conquistou seu último título brasileiro, consolidando-se, na época, como o maior vencedor dessa competição, continuava tendo uma trajetória boa. Mas a teimosia de permanência do grupo Renovação e Transparência no poder começava a apresentar problemas, como o grande endividamento do clube.
A própria condução da arena corinthiana foi muito mal conduzida. O clube teve a oportunidade de pagar grande parte do seu custo com a venda, na época, dos naming rights e dos CIDs da Prefeitura, mas deixou escapar essas grandes oportunidades.
Com o clube se afundando em grande endividamento e, paralelamente, deixando de ser protagonista no futebol, já tinha passado da hora de dar um basta na permanência do grupo Renovação e Transparência no poder.
Nesse cenário, surgiu Augusto Melo, que apareceu como candidato em 2020 e repetiu a candidatura em 2023, quando foi eleito com a confiança de grande parte dos associados e o respaldo da maioria da Fiel Torcida.
Augusto Melo tinha todas as condições de mudar o rumo do Corinthians, mas optou por colocar os “amigos” na sua administração e, de alguma forma, pagar o aporte financeiro colocado em sua milionária campanha.
Fui um dos que apoiaram sua condução à presidência. Mas, mesmo antes de sua posse, já tinha ciência de que Augusto Melo iria frustrar toda a expectativa positiva. E seu cartão de visitas foi o nebuloso caso Vai de Bet, no qual sua esperteza e a de seus mais destacados apoiadores causaram um dos piores momentos vividos pelo clube.
Em uma administração calamitosa, Augusto Melo, junto com sua diretoria, que contava com Pedro Silveira, indicado para o cargo por Raul Corrêa, dinamitou as finanças do clube, praticamente dobrando o passivo financeiro corinthiano em um ano e meio de gestão.
O danoso contrato de Memphis Depay ilustra o modus operandi, e o Corinthians passou a ser assíduo frequentador das páginas judiciais. E policiais!!!
Augusto Melo, sem nenhuma dúvida, foi o pior dirigente da história corinthiana. Seu impeachment, que foi muito adiado por interesses presentes entre aqueles que poderiam abreviar a agonia que foi sua administração, jogou o Corinthians em sua pior crise financeira e de credibilidade.
Na próxima segunda-feira, certamente Augusto Melo será expulso do quadro social. Que isso não se resuma ao ex-presidente e também atinja seus colaboradores mais diretos, que, além do mal que fizeram ao clube, ainda protagonizaram a invasão da sala da presidência, caracterizando cárcere privado.
Atenção, amigos corinthianos
Ontem, foi expulso quem representava a vontade da maioria dos corinthianos. Estamos prestes a nos livrar, definitivamente, de Augusto Melo, responsável pela gestão mais nefasta que o Corinthians já possuiu. Mas o Corinthians precisa de urgentes reformas estruturais.
A maior delas é a inevitável e fundamental separação administrativa do futebol em relação ao clube. Na década de 1970 e em meados da década de 1980, o clube era responsável por cobrir os déficits do Departamento de Futebol.
O Corinthians chegou a ter 80 mil associados contribuintes e, de alguma maneira, limitar aos associados a condução das decisões sobre a administração do Corinthians era, de certa forma, justificável.
Hoje, o Clube Social, no Parque São Jorge, é responsável por um grande déficit, em torno de R$ 120 milhões anuais. Certamente, se fosse bem administrado, a situação seria diferente. Inclusive, o Parque São Jorge, que já é um grande clube — o maior entre aqueles que têm o futebol como referência —, teria condições de oferecer muito mais: espaço para arena multiuso, hotel, prédio de atividades no estilo Sesc, entre outras possibilidades.
Outra mudança estrutural significativa é a criação da categoria de sócio-torcedor, com direito a votar e ser votado. Além de dar uma real oportunidade para que todo corinthiano que queira participar e contribuir tenha essa possibilidade e esse direito adquirido, tal medida poderá ser uma grande alavancagem financeira para o clube.
Poderia ser adotado um sistema híbrido, com o Corinthians partindo para a Bolsa de Valores, destinando um percentual das vagas do Conselho Deliberativo, ligado ao futebol, a quem aderir à compra de ações.
Dar direito ao voto aos corinthianos pertencentes ao Fiel Torcedor, porém, é uma cilada. Pois os votos serão direcionados ao mesmo universo político atual, fortalecendo ainda mais o cenário político corinthiano.
Terminando, amigos corinthianos, conclamo todos a reivindicarem e participarem mais efetivamente da vida do clube. Repito: o maior tesouro que o Corinthians possui é a Fiel Torcida, que, presentemente, não tem uma participação oficial nas grandes decisões do clube.
A crise financeira é grande, mas a força dos milhões de corinthianos é muito maior. Vamos lutar para resolver os problemas e devolver a necessária credibilidade ao clube.
Por outro lado, se optarmos por ficar apenas lamentando o que acontece no Corinthians, fruto do universo político limitado presente no Parque São Jorge, também teremos que admitir que somos culpados e parte do problema!!!
Cláudio Faria Romero Vila Maria
“O Corinthians precisa do amor de todos os corinthianos.”